sexta-feira, 27 de junho de 2008

The incredible shrinking man


Tem gente que reclama de tudo:

No trabalho reclama dos colegas, do chefe, do estacionamento, dos clientes;
No trânsito reclama dos outros motoristas, dos pedestres, da sinalização, da polícia;
Em casa reclama do cônjuge, dos filhos, do animal de estimação, dos vizinhos;
Reclama sempre do clima: está muito quente, muito frio, muito seco, muito úmido;

Haja paciência para conviver com alguém assim... E o pior é quando a parte infeliz que arrasta a tal cruz começa a se adaptar, a concordar com a rabugice.
Mas espera aí... não precisamos nos adaptar à nossa cara-metade para preservar nossa relação? Sim, mas desde que isso não signifique desistir da vida. E esta adaptação só funciona quando ambos estão dispostos a submeter-se aos possíveis ajustes. Quando somente um cede, ele acaba perdendo todo o espaço e se transformando em pano de fundo, paisagem, cenário. Como um camaleão vai tomando a côr das coisas que a cercam e perdendo personalidade até desaparecer de vez (como no filme O Incrível Homem que Encolheu, de 1957, dirigido por Jack Arnold).
Tolerância é uma coisa, anular a sí mesmo é outra - ninguém vale isso, principalmente considerando que a população adulta do mundo é estimada em mais de quatro bilhões de pessoas, com as mais variadas características e gostos. A não ser que o suposto "reprimido" sinta-se bem com isso - aí a história é outra.

Abraço

André Luiz

terça-feira, 24 de junho de 2008

Bom pra dois


Naquele dia, Catarino foi correndo pra casa. Seu time, após um longo jejum finalmente estava disputando as quartas de final de uma importante competição! Não bastasse a sua paixão pelo Arranca-Toco Futebol Clube, ele ainda havia apostado algumas caixas de cerveja com colegas de trabalho.
Abre a porta, afrouxa a gravata, atira a maleta no sofá, pega o controle remoto em cima da TV, senta-se na mesinha de centro e... click!
- Bem a tempo!
Os times acabavam de entrar em campo.
- Dá tempo pra pegar uma latinha...
corre até a geladeira, pega uma lata, bate a porta da geladeira, volta pra sala - Apita o árbitro! - bola rolando e a saída de bola é do Arranca-Toco Futebol Clube.

A porta se abre... Catarina chegando do trabalho.
- Começou? - pergunta afobada ao marido, enquanto atira a bolsa no sofá (ao lado da maleta de Catarino) e acomoda-se ao seu lado na mesinha de centro.
Assistem a partida juntos vibrando a cada lance... mas o Arranca-Toco acaba perdendo por 1 a 0.
- Fazer o quê? Futebol é uma caixinha de surpresas.

No dia seguinte, Catarina foi correndo pra casa. Era a reprise do último capítulo da novela que fôra exibido na noite passada - no mesmo horário do jogo. Quando abre a porta lá está Catarino, sentado na mesma mesinha de centro.
- Começou? - pergunta afobada ao marido, acomodando-se ao seu lado.
Assistem ao último capítulo da novela. Um último capítulo típico - podia ter sido melhor.
O time deles pode não estar muito bem e a novela pode não ter sido das melhores, mas esse nosso casal está realmente fazendo progressos.

Abração

André Luiz

domingo, 15 de junho de 2008

Voltei!!!

Oi gente! Voltei! Desculpem a ausência, mas acontece que depois de mais de dois anos - modéstia à parte - tirei merecidas férias. Durante as férias eu só usava o computador para gravar DVDs. Quase nem checava meus e-mails. Mas continuei trabalhando nesse projeto - observando, pensando, lendo.
Para o meu retorno, ao invés de um filme ou um "estudo de caso" com um casal fictício (nem tanto...), trago uma poesia que gostaria muito que lessem atentamente. A autora é Florbela Espanca e foi musicada por Raimundo Fagner:

Fumo


Longe de ti são ermos os caminhos,

Longe de ti não há luar nem rosas,

Longe de ti há noites silenciosas,

dias sem calor, beirais sem ninhos!


Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

Perdidos pelas noites invernosas...

Abertos, sonham mãos cariciosas,

Tuas mãos doces, plenas de carinhos!


Os dias são Outonos: choram... choram...

Há crisântemos roxos que descoram...

Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!


E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,

Fumo leve que foge entre os meus dedos!...


Não basta ler... não basta apreciar... é preciso sentir. Agora vem o ponto aonde quero chegar: algumas pessoas pensam o caminho para o saber é ler muito. Para mim isso é o mesmo que alguém achar que se alimenta bem apenas por comer muito. O importante é comer bem - e aí vem outro engano: comer bem não significa comer o mais caro - comer caviar iraniano não vai dar a ninguém super-poderes, embora seja muito chique e sirva para impressionar algumas pessoas.

Da forma como é a poesia de Florbela, quero que seja o meu relacionamento - quente, intenso, apaixonado, comprometido. Quero ter (e eu tenho, felizmente) ao meu lado alguém com quem eu SEMPRE quero estar - "na rua, na chuva ou na fazenda, ou numa casinha de sapé".

Alimentem suas almas com mais uma da Florbela (também musicada pelo Fagner):

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."


Forte abraço.

André Luiz